terça-feira, 12 de novembro de 2013

(Mundo acutilante) III

Olá estranho.
Foi bom rever-te hoje, passado este tempo. Foi bom recordar e sentir a tua presença no mesmo espaço que o meu, ainda que por alguns minutos e de relance.
A tua mão tão perto da minha cara.

Estás igual...



Fechei os olhos e molhei a cara.Por momentos imaginei-me a despertar com a água, transferi-me para uma outra realidade onde estava prestes a acordar de uma noite de sono. Abri os olhos. Suspirei...

quinta-feira, 3 de maio de 2012

"Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh'alma
Que chorasse perdida em tua voz!..."











Florbela Espanca

sábado, 28 de abril de 2012



Azulejo no túnel da estação de comboios do Estoril
...

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Senhor Professor

Ele era um poeta
Era um Senhor poeta!
Falava do coração;
diminuía-nos com a grandeza dos seus gestos;
a agressividade dos seus pensamentos
e a altivez da sua voz!
Era maduro
mas escondia a sua idade;
Era um Senhor,
mas tinha olhos de menino.
Um dia chorei com a sua poesia,
e ele chorou comigo
Um dia ele chorou pela sua vida,
mas chorou sozinho.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Les amis

Certo dia, estava eu concentrada a ouvir a história de um imigrante que tinha um contrato com a IKEA e que de quatro em quatro anos tinha de mudar de país, juntamente com a sua mulher e filhos, para poder continuar com o seu ordenado habitual, quando ele olha para mim e me pergunta:

- Tens amigos?

Por instantes fiquei a pensar. Segundos antes estava eu a imaginar como seria difícil para aquela família ter de estar sempre a começar de novo, sobretudo para os filhos, que seriam obrigados a deixar as suas amizades para trás, partindo à descoberta de um novo país e de novas pessoas.

- Tenho - respondi-lhe eu - não são muitos, mas tenho.

- Hum. Tens a certeza? Achas que eles dariam a sua vida por ti, se fosse necessário?

- Bem… penso que sim. Pelo menos acho que existe uma pessoa que faria isso…

Reparando na minha hesitação, ele aconselhou-me:

- Pensa lá bem…

- Tu tens amigos? – Perguntei-lhe eu

- Não. Eu conheço pessoas.

Respondeu-me de uma maneira e com um tom que espelhavam aceitação e uma certa indiferença perante a sua afirmação. Observei-o, intrigada. Questionei-me sobre o que seria pior, o facto de uma pessoa não ter amigos, ou ter a consciência disso.

E voltei para casa com estes pensamentos na cabeça. Amigos, amigos… como é que se define um amigo? Um amigo terá necessariamente de fazer tudo por nós, ou é alguém que simplesmente presenteia e faz parte de alguns ciclos da nossa vida?
Já tinha pensado nisto antes, obviamente. Mas confesso que a maneira directa como ele me confrontou com a pergunta, me deixou inquieta.

Hoje, formulei uma teoria:
Amigos são todos aqueles que sabem da nossa existência, e nós da deles, e os quais fazemos questão que estejam presentes em certos momentos da nossa vida, e nós da deles, de maneira a não nos sentirmos tão sozinhos e entregues a nós próprios, apesar de muitas vezes ser mesmo assim que nos sentimos.

Será?

(É um pouco triste pensar assim, tenho de admitir…)

La vie, c’est la vie…

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Síndrome de Pânico


     " Quando eu ainda era jovem e advogada, li certa vez um poeta inglês, e uma frase dele marcou-me muito: «Seja como a fonte que transborda, e não como o tanque, que contém sempre a mesma água.» Achei sempre que ele estava errado: era perigoso transbordar, porque podemos acabar por inundar áreas onde vivem pessoas queridas, e afogá-las com o nosso amor e o nosso entusiasmo. Então, procurei comportar-me a vida inteira como um tanque, nunca indo além dos limites das minhas paredes interiores.
      Acontece que, por alguma razão que nunca entenderei, tive a Síndrome do Pânico. Transformei-me exactamente naquilo porque tanto lutara para evitar: numa fonte que transbordou e inundou tudo ao meu redor. O resultado disso foi o internamento em Villete.
     Depois de curada, voltei para o tanque, e conheci-vos. Obrigada pela amizade, pelo carinho, e por tantos momentos felizes. Vivemos juntos como peixes num aquário, felizes porque alguém deitava comida na hora certa, e nós podíamos, sempre que desejávamos, ver o mundo do lado de fora, através do vidro.
      Mas ontem, por causa de um piano e de uma mulher que já deve estar morta hoje, eu descobri algo mais importante: a vida aqui dentro era exactamente igual à vida lá fora. Tanto lá como aqui, as pessoas reúnem-se em grupos, criam as suas muralhas, e não deixam que nada de estranho possa perturbar as suas medíocres existências. Fazem coisas porque estão acostumadas a fazer, estudam assuntos inúteis, divertem-se porque são obrigadas a diverti-se, e que o resto do mundo se dane, se resolva por si mesmo. No máximo vêem - como nós vemos tantas vezes juntos - o noticiário da televisão, só para terem a certeza do quanto são felizes, num mundo cheio de problemas e injustiças.
    Ou seja, a vida da Fraternidade é exactamente igual à vida de quase toda a gente lá fora - todos evitando saber o que se encontra para além das paredes de vidro do aquário. Durante muito tempo isso foi reconfortante e útil. Mas a gente muda, e agora eu estou em busca de aventura - mesmo já tendo 65 anos, e sabendo as muitas limitações que essa idade me traz. Vou para a Bósnia: há gente que me espera ali, embora ainda não me conheça, e eu tão-pouco as conheça. Mas sei que sou útil, e que o risco de uma aventura vale mil dias de bem-estar e conforto."


em Veronika Decide Morrer



Muitas vezes mergulhamos à procura de algo que julgamos não saber o que é, e nessa procura acabamos por perder o nosso rumo e a nós próprios. É bom que hajam livros que nos relembrem de certas coisas.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

quinta-feira, 19 de maio de 2011


Não percebo a necessidade que as pessoas têm de discutir. A facilidade com que perdem a consciência das palavras e começam a gritar, a gritar por coisas ridículas. E a rapidez com que fazem disso um hábito.
Zangar toda a gente se zanga, problemas, pequenos ou grandes, toda a gente os tem. Se isso é razão para se descontrolar constantemente? parece-me que não. Quando alguma coisa me chateia (e estou a falar dos problemas normais do dia a dia, não de situações graves e pontuais) eu tento fazer os possíveis para não tomar a atitude errada, nem me precipitar com as palavras. Por isso chateia-me que hajam pessoas a queixar-se de tudo e de nada, que usem o mais pequeno pretexto para discutir, que não saibam ouvir e que abalem o bem-estar das outras pessoas. Mais do que isso, chateia-me quando as pessoas não têm noção de que o fazem.

sábado, 16 de abril de 2011

Flor do Deserto


“Em nova York, onde vivo, toda a gente fala de valores familiares, mas não os vi em parte nenhuma. Nunca vi uma família reunir-se para cantar, bater palmas e rir como nós o fazíamos. Aqui, as pessoas não têm laços que as liguem umas às outras e nenhuma consciência de pertencerem a uma comunidade.
(…)
Na Somália, sabíamos apreciar as coisas simples da vida. Festejávamos a chuva porque isso significava que teríamos água. Quem, em Nova York, se preocupa com isso? Deixamos a água correr na torneira enquanto fazemos outra coisa na cozinha. Está sempre lá quando precisamos. BOOM, basta abrir a torneira. Só quando nos vemos privados das coisas é que lhes damos valor, e quando não temos nada, damos valor a tudo.
(…)
Hoje em dia, aprecio o valor das coisas simples. Todos os dias conheço pessoas que possuem belas casas (por vezes várias), carros, barcos, jóias, e que no entanto só pensam em adquirir mais, como se a compra seguinte fosse finalmente trazer-lhes a tranquilidade e a paz de espírito. Eu não preciso de um anel de diamantes para ser feliz. As pessoas dizem-me que é muito fácil falar assim, agora que posso comprar o que quero. Mas eu não quero nada. Para mim, o bem mais precioso da vida – para além da vida em si mesma – é a saúde. Mas as pessoas desperdiçam esse bem inestimável deixando-se invadir por todas as espécies de pequenas contrariedades fúteis: Hoje é uma conta, amanhã outra, e um monte delas que chovem de todos os lados… Como farei para pagar tudo isto? Os Estados Unidos são o país mais rico do mundo, e no entanto os seus habitantes sentem-se pobres.
Mais ainda do que a falta de dinheiro, toda a gente se queixa da falta de tempo. Ninguém tem tempo para nada. Sem tempo nenhum. «Sai-me da frente, pá, tenho pressa!». As ruas estão repletas de gente que corre em todas as direcções, sabe Deus atrás de quê.”
Waris Dirie

Finalmente terminei de ler o livro "Flor do Deserto" escrito por Waris Dirie. No livro, a escritora conta como foi mutilada aos 5 anos de idade e como deixou a sua vida em África, na Somália, para começar uma nova vida Em Nova York. De entre muitos excertos, gostei especialmente deste.

quarta-feira, 6 de abril de 2011


O estranho ainda me visita de vez em quando, sabias?
Só que agora já não lhe vejo o rosto, nem o corpo, só umas quantas memórias e um pouco de culpa.
Era bom que todas as histórias tivessem um final feliz (...ou pelo menos um final).

quinta-feira, 24 de março de 2011

Não tens que ler tudo de uma vez ;)


   Hoje vou escrever para ti. Não porque me lembrei apenas hoje de ti, porque eu penso em ti todos os dias, muito mais do que provavelmente tu julgas. Escrevo hoje porque tenho necessidade de falar contigo, de te dizer o que sinto e o que penso, porque sem dúvida és das pessoas que mais admiro e que me continua a surpreender, porque para mim és um modelo de como as pessoas devem ser. Às vezes ponho-me a olhar para ti e a pensar “Fogo, que pessoa extraordinária”.
   Sei que conheces os meus grandes e pequenos defeitos, embora não falemos tanto disso como poderíamos falar. E penso que percebes que ainda há coisas em mim que me custa admitir, coisas parvas da minha personalidade que gostava que fossem diferentes mas que não mudo.
   Hoje apetece-me falar sobre elas. Apetece-me ler de mim como sou. E partilhá-lo contigo.
   Se me pudesse descrever em três palavras diria: complicada, insegura, leal. (fiquei um tempinho a pensar ainda!) Não sei porque é que é tão difícil falar sobre nós, sobretudo às pessoas que nos conhecem. Sem dúvida que complicada é o que sou mais. Às vezes pergunto-me onde cabem tantos pensamentos ao mesmo tempo, sobre mil e uma coisas diferentes, como é que mudo de opinião da noite para o dia, num minuto quero fazer, no outro já não quero, agora estou feliz, a seguir já ai de quem me chatear, as 13h gosto de toda a gente, as 13h15m a vida é uma porcaria, este verão quero um cão, no próximo acho que não. Faço? Não faço? Secalhar é melhor não. Mas se não fizer vou-me arrepender. Mas apetece-me. Não, está decidido, não faço! Mas e se… enfim. Ainda estou a tentar controlar a parte da indecisão.
   Mas há uma coisa em que não sou indecisa, nas amizades. Sei bem de quem gosto e quem quero ao meu lado, o resto são afins. Adoro conhecer pessoas e dou-me com muita gente, mas é preciso muito para alguém ganhar raízes sólidas comigo. Sou bastante adaptável e liberal aos conhecidos, mas com os amigos sou um pouco inflexível. E sobretudo odeio notar que eles estão a mudar e que não me agrada. É o suficiente para haver uma quebra na confiança ou na vontade de estar com o outro. Mas valorizo muito as amizades que tenho.
   Nas relações amorosas a história já é outra. Torna-se difícil para mim criar ou assumir uma relação com alguém. Não porque não queira, mas simplesmente porque não o sei fazer. Penso que o meu grande problema é estar habituada a ser comigo mesma e achar que o outro nunca irá conseguir perceber-me realmente, nem conviver com as minhas mudanças constantes de humor, porque costumam dizer que para haver uma relação é preciso estabilidade, não é? Well, I try… De qualquer maneira, quando penso nisso acho que é estúpido, em que é que uma relação amorosa pode ser muito diferente de uma de amizade? A única diferença que vejo é o facto de se poder ter vários amigos e o contrário ser um bocado inconveniente x) A falar a sério, aqui para nós, eu acho que o que eu tenho mesmo medo é de investir em alguém que depois me desiluda a sério. O que seria uma chatice.
   Mudando se assunto, gosto muito de ler, de filmes, de jogos para pensar, de jogos tradicionais, do ar livre, de brincadeiras de crianças, de andar descalça, de pintar com as mãos, de desenhar, rabiscar, fazer bolas de sabão, fazer piqueniques aos Domingos à tarde (adoro dias de sol), de ir à piscina, coberta ou descoberta, de ir à praia, de rir, de comer :D, adoro falar com as pessoas, descobri-las e conhecê-las (também tem as suas variantes), ouvir histórias, saber do mundo, muitas vezes desligar-me dele e fingir que a maior parte das coisas não existe, gosto de música na altura certa, de boa-disposição e de alegria, gosto de ter a família reunida e haver  muita confusão, mas também gosto de chegar a casa e ter calma, tempo para descansar sem barulho. Gosto de fazer exercício físico mas não gosto de me enfiar num ginásio durante horas, não gosto de pessoas interesseiras e odeio que se metam na minha vida. Gosto da simpatia na medida certa, nada de exageros, gosto de pessoas verdadeiras e não gosto de “duplas faces”, gosto de ganhar a confiança das pessoas e gosto que ganhem a minha, não gosto de pessoas egoístas e de pessoas que reclamam por tudo. Gosto da solidariedade mas não gosto que se aproveitem dela. Gosto de espírito de equipa e de pessoas que pensam no bem-estar dos outros, que não olhem unicamente para o próprio umbigo. Sou uma pessoa teimosa, mas tento ser flexível, irrito-me facilmente. É fácil alguém me magoar, independentemente de quem seja. Adoro a  minha mãe e da personalidade que ela tem, estou-lhe grata por muito mas às vezes torna-se impossível conviver com ela. Não suporto sentir-me pressionada e sem espaço. Gosto do meu irmão, apesar de tudo. Tu entendes J  Às vezes não suporto estas tecnologias todas, os iphones, Ipads, telemóvel para cá, pc para lá, máquina de lavar, máquina de fazer comida, GPS, Playstation, Mp3, escadas rolantes, máquinas registadoras, carros… enerva-me. Um bocado menos de aceleração também não fazia mal…
   Falando de ti (é difícil parar de escrever quando se começa), penso que o que mais me prende à tua pessoa é o facto de seres tão transparente. De muitas vezes, mesmo sem te aperceberes, pores o orgulho e o status e essas coisas todas de parte. O que tu queres mesmo é felicidade, sorrisos e Amor, e eu adoro isso. A tua revolta genuína contra as injustiças, as expressões engraçadas de indignação, que facilmente mudam para expressões de tédio ou cansaço, pela monotonia das coisas que te rodeia, que no fundo não te conseguem acompanhar. Eu mesma admito que às vezes é difícil acompanhar-te. A tua genica, os pulinhos, as palmas, a felicidade. Dás vontade de viver J A tua vontade de conhecer e de crescer, admiro-a. Diria até “Quando for grande quero ser como tu!” x) 
   Bem, o que quero dizer, no fundo, é que me sinto muito bem por te ter ao meu lado e por partilhares comigo quem és e por me dares confiança para partilhar contigo quem sou. Por me ensinares todos os dias qualquer coisinha e por, apesar de muito e de nada, me ter acostumado de tal maneira à tua presença que se torna impossível pensar em “não estares” aqui, porque ao já teres estado, nunca deixarás de estar.  
Muito Obrigada.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Verdades dogmáticas

" (...)Vossa majestade viverá eternamente na lembrança dos vossos súbditos, eternamente viverá na glória dos céus, mas a memória não é bom terreno para nela se abrirem alicerces, antes vão caindo aos poucos as paredes, e os céus são uma só igreja onde S. Pedro de Roma não faria mais vulto que um grão de areia, Se assim é, por que construímos nós igrejas e conventos na terra, Porque não compreendemos que a terra já era uma igreja e não um convento, lugar de fé e de responsabilidade, lugar de clausura e de liberdade, (...)"


em Memorial do Convento

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

homens

"Born to push you around
Better just stay down.
You pull away
He hits the flesh
You hit the ground
Mouth so full of lies
Tend to block your eyes.
Just keep them closed
Keep praying
Just keep waiting

Waiting for the one
The day that never comes
When you stand up and feel the warmth
But the sunshine never comes.
No, the sunshine never comes
Love is a four letter word,
And never spoken here.
Love is a four letter word,
Here in this prison
Waiting for the one
The day that never comes"
Metallica- the day that never comes
(...)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Contemplar


"Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu

Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver. "



Alberto Caeiro

sábado, 22 de janeiro de 2011

Directo à cabeça

"Andavas tão sossegada
Longe dos sobressaltos
Nessa paz desinfectada
Tão sem baixos nem altos

E eu cheguei como um bandido
Que abafa os seus próprios passos
Sem ver o teu olhar ferido
Por marcas de outros fracassos


Accionaste o teu alarme
Trancaste as tuas janelas
Mas eu já tinha feito o cerco
E anulado as sentinelas

Depois quis armar a tenda
No fundo do teu jardim
Inflamar a tua paz
Com o lume dum motim


Mas tu tinhas decidido
Que não ias gostar de mim
Porque tinhas prometido
Não cair noutra assim

Treinaste o teu coração

Não há ninguém que o aqueça
Mal vês perigo de paixão
Ligas directo à cabeça"


Rui Veloso